O MITO DO EMPREENDEDORISMO
- INTRODUÇÃO
O livro “23 Coisas que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo”, de Ha-Joon Chang (2013), apresenta uma reflexão crítica sobre diversas ideias amplamente aceitas a respeito do capitalismo contemporâneo. A obra busca demonstrar que muitos princípios econômicos considerados naturais ou científicos são, na realidade, construções históricas e políticas. O autor defende uma compreensão mais ampla e menos ideológica do funcionamento do capitalismo.
Entre os vinte e três capítulos que compõem a obra, destaca-se especialmente o primeiro, intitulado “Não existe algo como um livre mercado”. Neste capítulo, Chang desenvolve a tese que serve de base para grande parte de sua argumentação: a ideia de que o livre mercado, frequentemente apresentado como uma realidade objetiva, é na verdade um mito. A partir dessa perspectiva, o autor questiona a neutralidade dos mercados e discute o papel fundamental do Estado na organização da economia
Diante disso, essa resenha tem como objetivo analisar a crítica de Ha-Joon Chang ao conceito de livre mercado destacando os argumentos utilizados pelo autor para demonstrar a influência das instituições e das decisões políticas sobre a atividade econômica.
- O CONCEITO DE LIVRE MERCADO
A principal crítica apresentada por Chang é direcionada à crença de que os mercados podem funcionar de forma totalmente livre, sem interferência política ou institucional. Essa visão ignora o fato de que toda atividade econômica ocorre dentro de um conjunto de regras estabelecidas pela sociedade. Direitos de propriedade, contratos, normas trabalhistas, regulamentações comerciais e sistemas jurídicos são exemplos de mecanismos que tornam possível o funcionamento dos mercados.
Para Chang (2013), o que muitos economistas chamam de livre mercado é apenas um mercado regulado de uma forma específica, não existe uma situação em que as trocas econômicas ocorram sem qualquer tipo de regra. Na prática, toda sociedade estabelece limites para aquilo que pode ou não ser comercializado, para quem pode participar das atividades econômicas e para quais condições devem ser respeitadas durante essas transações.
O autor demonstra que até mesmo países frequentemente citados como exemplos de liberdade econômica possuem extensas regulamentações em áreas como comércio, sistema financeiro, relações trabalhistas e proteção ao consumidor. Dessa forma, a noção de um mercado completamente livre torna-se mais uma construção ideológica do que uma descrição fiel da realidade.
- O PAPEL DO ESTADO NA CONSTRUÇÃO DOS MERCADOS
Uma das contribuições mais importantes do livro é mostrar que o Estado não atua apenas corrigindo falhas de mercado, mas participa diretamente da própria criação dos mercados Sem leis, tribunais, sistemas monetários, infraestrutura e órgãos reguladores, a atividade econômica moderna simplesmente não poderia existir.
Chang argumenta que salários, taxas de juros e até mesmo os fluxos migratórios são influenciados por decisões governamentais. Isso significa que fatores considerados essenciais para o funcionamento do mercado não são determinados exclusivamente pela oferta e pela demanda. Ao contrário, eles dependem de escolhas políticas realizadas pelos governos e pelas instituições.
Essa análise rompe com a ideia tradicional de que existe uma oposição entre Estado e mercado, ambos fazem parte de um mesmo processo. Os mercados são construções sociais que dependem continuamente da ação estatal para funcionar. Portanto, afirmar que o Estado deve simplesmente deixar o mercado agir, ignora o fato de que os próprios mercados existem graças à intervenção e à organização promovidas pelo poder público.
- O LIVRE MERCADO COMO DISCURSO POLÍTICO E IDEOLÓGICO
Outro aspecto relevante da obra é a demonstração de que o debate sobre o livre mercado envolve valores morais e também escolhas políticas. Chang (2013) utiliza exemplos históricos para mostrar que aquilo que uma sociedade considera uma interferência indevida no mercado pode ser visto por outra como uma medida necessária para garantir justiça e bem-estar social.
O caso do trabalho infantil é um exemplo marcante. Durante a Revolução Industrial muitas pessoas acreditavam que limitar o trabalho de crianças representava uma violação da liberdade econômica. Atualmente, a proibição do trabalho infantil é amplamente aceita como uma conquista social. Isso demonstra que os limites do mercado mudam ao longo do tempo de acordo com os valores predominantes em cada sociedade.
Segundo o autor, muitos economistas defensores do livre mercado apresentam suas posições como se fossem verdades científicas incontestáveis. No entanto, é argumentado que essas posições também refletem escolhas políticas. Quando alguém defende menos regulamentação ou maior liberdade econômica, está defendendo uma determinada visão de sociedade e não simplesmente aplicando uma lei natural da economia.
- AS CONSEQUÊNCIAS DA CRENÇA NO LIVRE MERCADO
Ao longo do livro “23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo”, é demonstrado que a crença excessiva no livre mercado produziu consequências econômicas e sociais significativas. A partir da década de 1980, diversas nações adotaram políticas inspiradas pelo neoliberalismo, reduzindo regulamentações, privatizando empresas públicas e ampliando a liberdade dos mercados financeiros.
De acordo com o autor, os resultados dessas políticas ficaram abaixo das expectativas. Em vez de promover crescimento econômico acelerado para todos, elas contribuíram para o aumento da desigualdade social e para uma maior instabilidade financeira. A crise econômica global de 2008 aparece como um exemplo concreto dos riscos associados à confiança excessiva na capacidade de autorregulação dos mercados.
A defesa irrestrita do livre mercado pode limitar a capacidade dos governos de implementar políticas voltadas para o desenvolvimento econômico, a geração de empregos e a redução das desigualdades. Em sua visão, Chang (2013) comenta que uma economia saudável depende de um equilíbrio entre iniciativa privada e atuação estatal e não da supremacia absoluta de um desses elementos sobre o outro.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A leitura de “23 Coisas que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo” permite compreender que muitas ideias amplamente difundidas sobre a economia merecem ser questionadas. Ao analisar o conceito de livre mercado, Ha-Joon Chang demonstra que os mercados não funcionam de forma independente das instituições políticas e das escolhas sociais. Pelo contrário, sua existência depende de regras, leis e mecanismos criados pela própria sociedade.
O principal objetivo da obra consiste em desmistificar a ideia de que existe um mercado totalmente livre e capaz de solucionar sozinha todos os problemas econômicos. Ao revelar o caráter político das decisões econômicas, o autor incentiva uma reflexão mais crítica sobre o capitalismo contemporâneo e sobre o papel que governos, empresas e cidadãos desempenham na construção do desenvolvimento econômico.
Dessa forma, o livro contribui para ampliar o debate sobre os limites e as possibilidades do capitalismo, mostrando que a economia não deve ser compreendida apenas como um conjunto de fórmulas técnicas, mas também como resultado de escolhas sociais e políticas que influenciam diretamente a vida das pessoas.
REFERÊNCIAS
CHANG, Ha-Joon. 23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo. Tradução de Cláudia Gerpe Duarte. São Paulo: Cultrix, 2013
Texto escolhido e elaborado pelos estudantes do 1º semestre de Ciências Econômicas da ESAN/UFMS (2026/1) elencados abaixo:
- Jean Guilherme Nery de Oliveira Becker
- Desidéria Adolfo Pereira
- Gabriel Sabatel Giovanni
Tema escolhido e elaborado pelos estudantes com base nas aulas da disciplina de Prática Extensionista I, ofertada no 1º semestre de 2026, referente ao projeto de extensão “Entendendo a Economia: Oficinas de Leitura, Análise de Dados e Educação Financeira”, coordenado pelo professor Dr. Odirlei Fernando Dal Moro.
Orientação Docente: corrigido e orientado por Prof. Dr. Odirlei Fernando Dal Moro – Docente do curso de Ciências Econômicas, ESAN/UFMS.
Ano da Publicação: 2026.

